segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Encontro com Eduardo Galeano


A palestra finalmente chegou ao fim. Era o primeiro final de semana da Feira Internacional de Literatura de Montevideo e o anfiteatro estava lotado. Lá estava Eduardo Galeano. Muitas pessoas o assediavam em busca de uma dedicatória para exibir em seus livros. Ele ouvia todas com atenção.
– Como está Galeano? – o cumprimentei. Ele respondeu em um fluente português. – Estou bem, e você?
Depois do primeiro contato visual e a simpatia a primeira vista tudo fluiu. Perguntei se poderia conceder uma entrevista, que seria publicada na revista Caros Amigos.
– Para essa revista sempre – assinalou. Pegou minha caderneta e anotou seu email pessoal. Agora eu tinha o email do homem que tem influenciado mentes e corações em todo o mundo, pensei. Só restava saber uma coisa: ele lia emails?

Na mesma semana enviei o pedido de entrevista:
Caro Galeano,
Estou escrevendo para marcarmos a entrevista. Diga-me o dia, o horário e o local que lá estarei.
Creio que podemos marcar em um café tranquilo ou no lugar onde costuma escrever. Algum lugar que te pareça confortável e agradável.
Abraço
Fania Rodrigues


Passou uma semana ele ainda não havia respondido. Já estava achando que jamais responderia e que havia se arrependido do dia em que sem pensar passou seu email a uma jornalista com cara de estudante. Fui checar o endereço que ele havia anotado de próprio punho e constatei que o erro era meu! Um “t”, que nverdade era um “l”, tinha se transformado na barreira que me separava de Eduardo Galeano. Ah, que lástima! Então escrevi um novo email, encaminhando o primeiro logo abaixo:
Caro Galeano
Hoje me dei conta que estava enviando email para o endereço errado.
Bien, vamos marca a entrevista.
Fico até o dia 25 em Montevidéu. A entrevista vai sair na edição de novembro.
Temas: livros, américa latina e uruguai.
Beijos
Fania Rodrigues


Para minha surpresa, agradável surpresa, a resposta veio no mesmo dia.

fania, querida, pode ser no dia 21, segunda, as tres da tarde, no café brasilero, sim, brasilero, rua ituzaingó e 25 de mayo, perto da catedral.
me diga.
obrigado, abraços,
eduardo

Sim, ele lia emails, e mais, respondia. Alguns poucos minutos a mais chegou outro email:

esqueci te dizer que fotos nao sao necesarias, porque tenho algumas boas fotos, bem recentes e ainda inéditas, que poderao servir.
beijo,
eduardo, chamado dudú

Sua generosidade poupou-me horas e dias de ansiedade esperando para receber a tão esperada resposta.
Era uma tarde de segunda-feira e o frio, típico da região, tinha dado uma trégua. Quando cheguei no Café Brasilero, na hora marcada, lá já estava o Dudú. Sentado na última mesa no lado esquerdo, na companhia de uma pasta de couro preta, um café e um suco de laranja (sem gelo e sem açúcar). Quando entrei ele sorriu como quem acenasse. Levantou-se e me recebeu com beijo na face. Tivemos uma longa e gostosa conversa sobre livros, o amor pelos cafés, América do Sul e, claro, sobre política.
Pedi desculpas pela demora do email, por ter passado uma semana enviado para o endereço errado. E como quem confessa um pecado falei de minha falta de intimidade com os computadores. Mas para meu consolo Galeano também se informatizou a pouco tempo.
– Tenho uma teoria – me disse. – A noite, quando estamos dormindo as máquinas se juntam, fazem festa e bagunça. Elas bebem de tudo: whisk, vinho, cachaça, cerveja... Por isso de dia fazem coisas inexplicáveis.
Uma boa teoria para explicar a intempestividade dos computares!
No final da entrevista presenteou-me com dois livros (Espelho e Livro dos Abraços), com direito a dedicatória e o desenho do porquinho que faz para os amigos, com tempo de confidenciar sua paixão pelo desenho. – Às vezes passou horas desenhando – afirmou.
Depois pedi para publicar três textos curtos no final da entrevista. Dois do livro Espelho, que ele mesmo selecionou e outro do Livro dos Abraço. Falei que gostava particularmente de uma crônica sobre a cidade do Rio de Janeiro, que descreve muito bem as idiossincrasias da cidade. A crônica diz: “No alto da cidade do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, Cristo Redentor estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparam. [...] A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: os atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam os deuses africanos. Cristo sozinho não basta.” Livro dos Abraços.
- Cristo sozinho não basta? – pergunto.
- A crença é como o amor. Tem uma canção de Milton Nascimento que diz: “qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá” – e sorriu. Tudo estava dito.
Encerramos a entrevista e pedi para tirar uma foto com ele. – Claro, o Salgado vai tirar – brincou com o garçom, fazendo uma referencia ao brasileiro Sebastião Salgado. Tiramos a foto, ele gentilmente pagou a conta e saímos juntos. Já na rua perguntei o que achava da seleção do Uruguai, se conseguiria se classificar para o mundial. – Esse futebol é uma pornografia – respondeu de bom humor, mas também indignado. Nos despedimos na esquina. Ele virou na rua transversal e eu segui em frente.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eleições do Uruguai


Um ex-guerrilheiro lidera as intenções de voto para as eleições presidenciais do Uruguai. O que seria impossível na América do Sul dos anos 1970, quando muitos países viviam em plena ditadura militar, ainda soa estranho mesmo num dos mais democráticos dos países latino-americanos. José “Pepe” Mujica, hoje, com 74 anos, começou sua militância política ainda na década de 1960, quando ingressou no Movimiento de Liberación Nacional - Tupamaros (MLN-T), uma organização política uruguaia, composta por diferentes movimentos da esquerda radical, que atuou como guerrilha urbana, entre 1960 e início da década de 1970. Veja a matéria completa na edição de outubro da Revista Caros Amigos.


As eleições, para presidente e parlamento, serão realizadas dia 25 de outubro. Mujica, do partido Frente Amplio, lidera as intenções de voto, com 45%. O ex-presidente Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional (Blanco) está em segundo lugar com 32%. Além disso, mais três partidos estão na disputa, entre eles o Partido Colorado, Assembléia Popular e Partido Independente.

Tempo, tempo, tempo



"Montevideo es una de las pocas capitales latinoamericanas donde todavía se puede caminar y respirar", assim define Eduardo Galeano, filho ilustre dessa terra. Aqui o tempo parece passar mais devagar. Há tempo para fazer tudo e sempre é tempo para fazer alguma coisa.
Há tempo para ler, dormir, andar tranquilamente pelas ruas, sem medo de perder a hora podendo, dessa forma, apreciar as histórias, as estórias e a História, que pela gente enquanto caminhamos. Há tempo para falar com as pessoas, para pensar, para ouvir e para aprender. Para divagar sobre o tempo.

domingo, 13 de setembro de 2009

Ferida social




Montevidéu não foge aos problemas sociais das grandes metrópolis sul-americanas. Crianças pedindo dinheiro é comum no centro da cidade. Uma realidade que faz doer os olhos de quem sabe que as riquezas são mau distribuidas. Aqui também há favelas. A única diferença é que no Uruguai o nome é "assentamento". Pode mudar de nome, mas pabreza é a mesma . As veias também estão abertas nessa parte da América. Mais de 300 mil pessoas vivem abaixo da linha da pobreza no Uruguai. Parece pouco, mas estamos falando de um país de 3,4 milhões de pessoas. Seja aqui ou em outras partes do mundo a pobreza é sempre cruel.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pelas ruas de Montevidéu
















Uruguai: País das águas





Banhada pelo Rio da Prata, Montevidéu definitivamente é a cidade que faz pulsar o Uruguai. É nela que tudo acontece, tanto no campo da economia, quanto no da cultura e da política. Assim como na maioria dos países sul-americanos, a capital federal é a cidade mais importante do Uruguai. Aqui vivem cerca de 1,5 milhão de pessoas. Quase a metada da população do país, que hoje é de 3,4 milhão de habitantes.

Localizado entre os gigantes Brasil e Argentina, Uruguai, apesar de possuir um território menor que o estado do Paraná, ocupa um lugar estratégico do ponto de vista geopolítico. Importante consumidor de produtos brasileiros e argentinos também é fortemente influenciado pela economia dos dois vizinhos.

Mesmo com uma moeda desvalorizada o país possui uma situação econômica estável e experimenta um significativo crescimento. Mesmo em tempos de crise mundial, no segundo trimestre de 2009 o Uruguai não apenas não entrou em recessão, como teve uma expanção de 0,5%. A estimativa para esse ano é que o país cresça cerca de 2%. Com isso, possívelmente, será um raros países que vai terminar 2009 crescendo. Além, disso em 2008 a economia uruguaia cresceu 9%, uma das mais altas taxas do mundo.

A abertura fiscal e a saída para o Atlântico, com uma costa marítima de 220km e mais 450 km do Rio da Prata, faz do Uruguai uma porta de entrada e saída de mercadorias. O país também possui 100 milhas de plataforma continental e agora quer chegar às 200 milhas. Se isso acontecer o Uruguai será um país das águas, pois terá mais água que território.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marcha da Esperança




Cheguei no dia 26 agosto, em Montevidéu, depois de ter ficado uma semana na pacada cidade de Rivera, que faz divisa com Santana do Livramento (RS). No dia 27 pela manhã acordei com uma marcha de 40 mil trabalhadores na 18 de Julho, principal avenida da capital federal do Uruguai .

Dezenas de sindicalistas, militantes de movimentos sociais e sociedade organizada foram às ruas para dizer que independente de quem vença as eleições presidenciais no dia 25 de outubro a luta continua. Muitos foram os ganhos nos últimos cinco anos de governo do presidente Tabaré Vasquez, da Frente Amplia, o primeiro presidente de esquerda do país. Mas algumas importantes reformas sociais, agrária e tributária, aclamadas pela sociedade, não aconteceram.

O número de desemprego caíu de 14 para oito por cento, mas ainda continua alto. Pois, o Uruguai não possui uma indústria nacional fortalecida. A grande maioria dos bens de consumo são importados do Brasil, Argentina, Estados Unidos e China. Contudo, posso dizer que acordar com o som das manifestações dos trabalhadores nas rua de Montevidéu foi uma agradável surpresa principalmento por ver um povo organizado e politizado.

Imagens de Rivera











domingo, 6 de setembro de 2009

Fronteira da paz


À primeira vista parece uma pequena cidade como outra qualquer. Mas, olhando mais de perto logo se nota suas particularidades, começando pela união de dois países “separados” apenas pelo canteiro de uma avenida. Dois mundos, moedas, línguas e costumes diferentes utrapassam todos os dias as linhas físicas e culturais que os dividem. Rivera, no Uruguai, e Santana do Livramento, no Brasil, formam um só povo que absolveram as culturas dos dois países.

Nas ruas é comum ver uruguaios falando em espanhol e o brasileiros respondendo em português. Além disso, o portunhol é praticamente um terceiro idioma local. Pois, há palavras que foram criadas pela população fronteiriça que não existem em nenhuma das duas línguas.
A integração é tanta que em alguns momentos chega ser irônica. No dia 25 de agosto comemora-se a independencia da República Oriental do Uruguai. Nesta data o exército brasileiro entra em território uruguaio e juntamente com a tropa do vizinho desfila pela principal rua de Rivera, a Sarandi, para rememorar o dia em Uruguai tornou-se independente de Portugal e Brasil. Ou seja, o ex-colonizador comemora junto com o ex-colonizado a independência conquistada. Para retribuir a gentiliza os brasileiros também convidam os militares uruguaios para festejar a indepêndencia do Brasil, todo 7 de setembro.

Amantes do chimarrão e do churranco na brasa, uruguaios e brasileros sulistas são falam em rivalidade quando o assunto é futebol. Toda vez que as seleções dos dois países se enfrentam a fronteira é fechada . Tudo começou na década de 1980. No dia seguinte do Brasil ter sido eliminado pela França na Copa do Mundo de 1986, no México, as ruas de Rivera e Santana do Livramento ficaram tomadas de folhetos que traziam a imagem da taça de capeão. Mas não passava de uma provocação, pois na parte superior do troféu foi fundica com a imgem de um pênis e logo abaixo vinha a frase que dizia: “Se senta nele Brasil”, fazendo alusão ao slogan da seleção brasileira que era “70 neles Brasil”. Tudo isso causou muita confusão e até hoje é lembrado pelas pessoas das duas cidades. Por isso a fronteira fica fechada em dias de jogo das seleções de Brasil e Uruguay. No entanto, a rivalidade se resume ao futebol. Pois nos outros campos o que vê são dois países que vivem, não separados, mas unidos pela fronteira, por suas semelhanças e suas paixões.

Primeira parada: Rivera


O que divide Rivera e Santana do Livramento é apenas um canteiro de uma avenida. E, na parte rural penas marcadores, que muitas vezes estão quase imperceptíveis.