A palestra finalmente chegou ao fim. Era o primeiro final de semana da Feira Internacional de Literatura de Montevideo e o anfiteatro estava lotado. Lá estava Eduardo Galeano. Muitas pessoas o assediavam em busca de uma dedicatória para exibir em seus livros. Ele ouvia todas com atenção.
– Como está Galeano? – o cumprimentei. Ele respondeu em um fluente português. – Estou bem, e você?
Depois do primeiro contato visual e a simpatia a primeira vista tudo fluiu. Perguntei se poderia conceder uma entrevista, que seria publicada na revista Caros Amigos.
– Como está Galeano? – o cumprimentei. Ele respondeu em um fluente português. – Estou bem, e você?
Depois do primeiro contato visual e a simpatia a primeira vista tudo fluiu. Perguntei se poderia conceder uma entrevista, que seria publicada na revista Caros Amigos.
– Para essa revista sempre – assinalou. Pegou minha caderneta e anotou seu email pessoal. Agora eu tinha o email do homem que tem influenciado mentes e corações em todo o mundo, pensei. Só restava saber uma coisa: ele lia emails?
Na mesma semana enviei o pedido de entrevista:
Caro Galeano,
Estou escrevendo para marcarmos a entrevista. Diga-me o dia, o horário e o local que lá estarei.
Creio que podemos marcar em um café tranquilo ou no lugar onde costuma escrever. Algum lugar que te pareça confortável e agradável.
Abraço
Fania Rodrigues
Passou uma semana ele ainda não havia respondido. Já estava achando que jamais responderia e que havia se arrependido do dia em que sem pensar passou seu email a uma jornalista com cara de estudante. Fui checar o endereço que ele havia anotado de próprio punho e constatei que o erro era meu! Um “t”, que nverdade era um “l”, tinha se transformado na barreira que me separava de Eduardo Galeano. Ah, que lástima! Então escrevi um novo email, encaminhando o primeiro logo abaixo:
Caro Galeano
Hoje me dei conta que estava enviando email para o endereço errado.
Bien, vamos marca a entrevista.
Fico até o dia 25 em Montevidéu. A entrevista vai sair na edição de novembro.
Temas: livros, américa latina e uruguai.
Beijos
Fania Rodrigues
Para minha surpresa, agradável surpresa, a resposta veio no mesmo dia.
fania, querida, pode ser no dia 21, segunda, as tres da tarde, no café brasilero, sim, brasilero, rua ituzaingó e 25 de mayo, perto da catedral.
me diga.
obrigado, abraços,
eduardo
Sim, ele lia emails, e mais, respondia. Alguns poucos minutos a mais chegou outro email:
Caro Galeano,
Estou escrevendo para marcarmos a entrevista. Diga-me o dia, o horário e o local que lá estarei.
Creio que podemos marcar em um café tranquilo ou no lugar onde costuma escrever. Algum lugar que te pareça confortável e agradável.
Abraço
Fania Rodrigues
Passou uma semana ele ainda não havia respondido. Já estava achando que jamais responderia e que havia se arrependido do dia em que sem pensar passou seu email a uma jornalista com cara de estudante. Fui checar o endereço que ele havia anotado de próprio punho e constatei que o erro era meu! Um “t”, que nverdade era um “l”, tinha se transformado na barreira que me separava de Eduardo Galeano. Ah, que lástima! Então escrevi um novo email, encaminhando o primeiro logo abaixo:
Caro Galeano
Hoje me dei conta que estava enviando email para o endereço errado.
Bien, vamos marca a entrevista.
Fico até o dia 25 em Montevidéu. A entrevista vai sair na edição de novembro.
Temas: livros, américa latina e uruguai.
Beijos
Fania Rodrigues
Para minha surpresa, agradável surpresa, a resposta veio no mesmo dia.
fania, querida, pode ser no dia 21, segunda, as tres da tarde, no café brasilero, sim, brasilero, rua ituzaingó e 25 de mayo, perto da catedral.
me diga.
obrigado, abraços,
eduardo
Sim, ele lia emails, e mais, respondia. Alguns poucos minutos a mais chegou outro email:
esqueci te dizer que fotos nao sao necesarias, porque tenho algumas boas fotos, bem recentes e ainda inéditas, que poderao servir.
beijo,
eduardo, chamado dudú
beijo,
eduardo, chamado dudú
Sua generosidade poupou-me horas e dias de ansiedade esperando para receber a tão esperada resposta.
Era uma tarde de segunda-feira e o frio, típico da região, tinha dado uma trégua. Quando cheguei no Café Brasilero, na hora marcada, lá já estava o Dudú. Sentado na última mesa no lado esquerdo, na companhia de uma pasta de couro preta, um café e um suco de laranja (sem gelo e sem açúcar). Quando entrei ele sorriu como quem acenasse. Levantou-se e me recebeu com beijo na face. Tivemos uma longa e gostosa conversa sobre livros, o amor pelos cafés, América do Sul e, claro, sobre política. 
Pedi desculpas pela demora do email, por ter passado uma semana enviado para o endereço errado. E como quem confessa um pecado falei de minha falta de intimidade com os computadores. Mas para meu consolo Galeano também se informatizou a pouco tempo.
– Tenho uma teoria – me disse. – A noite, quando estamos dormindo as máquinas se juntam, fazem festa e bagunça. Elas bebem de tudo: whisk, vinho, cachaça, cerveja... Por isso de dia fazem coisas inexplicáveis.
Uma boa teoria para explicar a intempestividade dos computares!
No final da entrevista presenteou-me com dois livros (Espelho e Livro dos Abraços), com direito a dedicatória e o desenho do porquinho que faz para os amigos, com tempo de confidenciar sua paixão pelo desenho. – Às vezes passou horas desenhando – afirmou.
Depois pedi para publicar três textos curtos no final da entrevista. Dois do livro Espelho, que ele mesmo selecionou e outro do Livro dos Abraço. Falei que gostava particularmente de uma crônica sobre a cidade do Rio de Janeiro, que descreve muito bem as idiossincrasias da cidade. A crônica diz: “No alto da cidade do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, Cristo Redentor estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparam. [...] A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: os atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam os deuses africanos. Cristo sozinho não basta.” Livro dos Abraços.
- Cristo sozinho não basta? – pergunto.
- A crença é como o amor. Tem uma canção de Milton Nascimento que diz: “qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá” – e sorriu. Tudo estava dito.
Encerramos a entrevista e pedi para tirar uma foto com ele. – Claro, o Salgado vai tirar – brincou com o garçom, fazendo uma referencia ao brasileiro Sebastião Salgado. Tiramos a foto, ele gentilmente pagou a conta e saímos juntos. Já na rua perguntei o que achava da seleção do Uruguai, se conseguiria se classificar para o mundial. – Esse futebol é uma pornografia – respondeu de bom humor, mas também indignado. Nos despedimos na esquina. Ele virou na rua transversal e eu segui em frente.
Pedi desculpas pela demora do email, por ter passado uma semana enviado para o endereço errado. E como quem confessa um pecado falei de minha falta de intimidade com os computadores. Mas para meu consolo Galeano também se informatizou a pouco tempo.
– Tenho uma teoria – me disse. – A noite, quando estamos dormindo as máquinas se juntam, fazem festa e bagunça. Elas bebem de tudo: whisk, vinho, cachaça, cerveja... Por isso de dia fazem coisas inexplicáveis.
Uma boa teoria para explicar a intempestividade dos computares!
No final da entrevista presenteou-me com dois livros (Espelho e Livro dos Abraços), com direito a dedicatória e o desenho do porquinho que faz para os amigos, com tempo de confidenciar sua paixão pelo desenho. – Às vezes passou horas desenhando – afirmou.
Depois pedi para publicar três textos curtos no final da entrevista. Dois do livro Espelho, que ele mesmo selecionou e outro do Livro dos Abraço. Falei que gostava particularmente de uma crônica sobre a cidade do Rio de Janeiro, que descreve muito bem as idiossincrasias da cidade. A crônica diz: “No alto da cidade do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, Cristo Redentor estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparam. [...] A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: os atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam os deuses africanos. Cristo sozinho não basta.” Livro dos Abraços.
- Cristo sozinho não basta? – pergunto.
- A crença é como o amor. Tem uma canção de Milton Nascimento que diz: “qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá” – e sorriu. Tudo estava dito.
Encerramos a entrevista e pedi para tirar uma foto com ele. – Claro, o Salgado vai tirar – brincou com o garçom, fazendo uma referencia ao brasileiro Sebastião Salgado. Tiramos a foto, ele gentilmente pagou a conta e saímos juntos. Já na rua perguntei o que achava da seleção do Uruguai, se conseguiria se classificar para o mundial. – Esse futebol é uma pornografia – respondeu de bom humor, mas também indignado. Nos despedimos na esquina. Ele virou na rua transversal e eu segui em frente.
Fanitchaaa, estou ligando nas suas andanças!!!
ResponderExcluirParabens pelo encontro, que com certeza, fará diferença pra vida inteira. Que beleza!
Continue bela, vc faz história.
Estou extremamente feliz, com sua empreitada.
Bjõões Kbçoila.
Tô aqui, emocionada com seus progressos...
ResponderExcluirEra isso que eu estava te falando outro dia, adoro quando você é você!
Besitos guapa!
GENIAL FANIA ESTOY ENCANTADO CON TU BLOCK
ResponderExcluirQUE LO QUE TE CUENTAS Teñidos éxito A Usted
UN BESO MUY GRANDE Y CUIDATE MUCHO FELIZ VIAJE
Muchas gracias, amigos, pela visita no meu blg. Obrigada de coração pelas observações. beijossss
ResponderExcluirFania
Adorei sua abordagem, adorei a forma como o Galeano te respondeu confirmando a alta conta que tenho daquele fabuloso intelectual.
ResponderExcluirParabéns! Quero ler a reportagem!
Flávia Caldeira (Niterói).
Fania que encanto, que encontro!
ResponderExcluirEncontro de artes, belas artes!
Parabéns pelo blog, pela vida.
Fiquei interessada em ler a reportagem!
Beijos*luz.
Amiga!!! Como me lembro do Fórum Social Mundial...
ResponderExcluirSó Cristo não basta né...
Beijoss
Olá,
ResponderExcluirmuito bom seu blog. Suas matérias são excelentes.
Parabéns mesmo.
Estou ancioso pela próxima postagem.
Abços e boa sorte nas suas andanças
Obs. Sua irmã Faustria que me indicou este site.
Lindos comentários... obrigada queridos!!
ResponderExcluirBeijos
Fania